Ela tocou a campainha do apartamento
204 quando eram pouco mais de onze horas da noite. Guilherme
demorou muito a abrir a porta. Estava tomando banho quando a
campainha disparou a tocar. Ele saiu do banheiro com o cabelo
molhado e de roupão preto e foi ver quem era. Assustou-se
quando viu que era Paloma. Não esperava por ela. Ela foi
logo entrando, analisando seu corpo de cima a baixo. Estava toda de
vermelho. Vestido vermelho. Unhas vermelhas. Sandálias
vermelhas. E pra completar, batom vermelho na boca. Parecia um
vulcão, louca para entrar em erupção. E mais
louca ainda estava pela possibilidade de parte da lava ser
derramada no 204.
_O que você veio fazer aqui,
Paloma?
_Nada de específico. Vim ver como
você estava.
_Veio ver como eu estava assim, sem
avisar?
_Hum, eu não sabia que precisava anunciar
antes de vir. Não vai me oferecer nada pra beber?
_Quer beber alguma coisa?
_O que você tem de bebida?
_Uísque.
_Com gelo, por favor.
_Você acha que eu sou seu
barman?
_Infelizmente não. Mas bem que você
gostaria...
_Quer se sentar?
_Eu adoraria. Estava no banho?
_Você percebeu?
_Foi inevitável. Como está seu
trabalho?
_Está bem.
Ele volta da cozinha e serve o copo de
uísque à ela, que pergunta:
_Você não vai tomar nada?
_Não, obrigada.
_Ah, eu queria propor um brinde! Mas tudo bem, eu
brindo sozinha!
E de modo solene, anuncia:
_À você, que acabou de sair do
banho!
_O que você veio fazer aqui,
Paloma?
_Ver como você estava. O que está
achando do Flamengo, no campeonato? Que subida, hein?
_Paloma, você não veio aqui para
tecer comentários sobre o campeonato brasileiro!
_Eu adoro o modo persistente como você
tenta arrancar a verdade das pessoas...
_O que você quer?
_Sabe muito bem o que eu quero.
_Saberia, se você fosse mais
clara.
_Ah estou sentindo uma dor nos pés. Vou
tirar os sapatos. Tem algum problema?
_Problema nenhum.
_Então, como eu ia falando, você
sabe o que eu quero.
_O que você quer? Dormir comigo?
_Não. Eu quero te apresentar à uma
nova aura. Eu quero fazer você esquecer dos seus compromissos
de amanhã. Eu quero te enlouquecer. Eu quero que você
venha, me pegue e me leve pra onde você quiser!
_Você é louca...
_Louca por chocolate! Aliás, eu tenho uns
aqui. Você aceita? Será que combina com o
uísque? Bem, você não está tomando mesmo
não é?
_Por que você faz as coisas desse
modo?
_Porque este é o modo como as garotas
fazem! E eu sou má. Sou muito má.
_Você é má?
_Muito má. E você deve me punir pois
eu tenho me comportado muito mal.
_Não cabe a mim te punir...
_Ah, mas foi pra isso que eu vim aqui. Sabe, eu
estou à procura de um menino que saiba me punir da maneira
correta. E meu corpo me dá todos os sinais de que você
é esse menino!
_Menina, não brinca comigo!
_Eu não estou brincando. Eu nunca falei
tão sério em toda a minha vida...
_É preciso coragem pra fazer o que
você fez, de vir até aqui.
_A coragem que não falta a mim falta
à você...
Guilherme silenciou. E olhou para Paloma, nesse
momento, sentada no sofá acolchoado branco, com os
pés no chão, o copo de uísque numa mão,
a barra de chocolate na outra, a lhe lançar olhares
devoradores. Então ela, como que num impulso louco de
eletricidade acumulada, levanta do sofá:
_Eu vou embora. Já vi que você
não quer ser apresentado à minha aura espiritual!
Adeus!
Ela abre a porta e sai, com o chocolate numa das
mãos e a sandália na outra. Guilherme pensa, reluta
mas o ser homem fala mais alto e ele vai atrás dela,
deixando a porta aberta. Consegue alcançá-la ao final
do corredor.
Agora, são quase seis horas da
manhã e a porta do apartamento 204 continua
aberta...
Por Anna Lu!
(porque só eu pra escrever esses textos um
tanto pederastas...)
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